Filha,
Você já tem 20 meses.
Abaixo um relato de 20 meses atrás, um pouco sobre nossos primeiros 25 dias juntas...
SOBRE HELOISA...
Em 16/01/2012 Heloisa nasceu... antes do tempo, eu poderia dizer. Mas digo também que nasceu na hora exata, no momento em que Deus escolheu para apresenta-la a nós, no momento que Deus escolheu para nos mostrar que só dEle dependemos.
Heloisa nasceu de 7 meses, mais especificamente 32 semanas (quando o esperado são 38). Uma cesariana de emergência trouxe ao mundo a nossa princesa. Pequena e frágil deixou o calor do útero e foi lançada à vastidão da luz como se tivesse sido atirada ao abismo.
Apesar disso, tinha um choro vigoroso, nasceu e logo já tratou de chorar, como se dissesse, desde o início, que estava decidida a vingar, independente do quão hostil lhe parecia o mundo.
Do ventre foi direto para incubadora. Passou 20 dias em uma UTI neonatal. Foi lá que aprendi que o mistério da vida se cumpre, não no grandioso, mas nas coisas pequenas, quase invisíveis. A comemoração se dá a cada grama adquirida, a cada ml de leite materno consumido. E como comemoramos cada conquista!!! Cada dia de vida é uma festa.
Enquanto estive lá, na condição de visitante da minha filha, pude acompanhar muitas histórias. Muitas vitórias. Pude me alegrar genuinamente com a alta de bebês de pessoas que nem ao mesmo conhecia direito, a alegria de ver um bebê ir pra casa tomava meu coração de maneira intensa e me peguei muitas vezes chorando feliz por ver um bebê indo embora pra casa.
Sempre imaginei uma UTI como um ambiente pesado, quase fúnebre. Lugar onde estão as pessoas que esperam a morte, era o que eu pensava. Mas não foi essa a impressão que tive ao entrar pela primeira vez naquela que foi a morada provisória da minha filha. Ali, longe de ser um lugar onde a vida começa a se esvair, é reduto do princípio da vida. Princípio, no sentido de começo, pois abriga vidas que se iniciam, mas também por conter a essência da força vital que a tudo anima.
Em filmes e novelas, uma UTI costuma ser um ambiente grave, com parentes chorosos e médicos cheios de solenidade. Na vida real, claro, não é assim. Tudo o que é incorporado ao cotidiano, perde a solenidade. A UTI neonatal é parte do cotidiano dos médicos e enfermeiros. Todos eles passam várias horas do dia ali muitas vezes sem se dar conta se já escureceu ou se ainda é dia. Os bebês que ali se encontram não conhecem outra realidade além daquela e do útero materno. De repente percebi a UTI neonatal virando parte do meu cotidiano e de muitas mães (mais raramente dos pais) que, em pouco tempo, incorporam aquele espaço de maneira que o ambiente escuro, com incubadoras enfileiradas, monitores e apitos deixa de ser dramático e se torna algo comum.
É engraçado como rapidamente nos adaptamos a rotina de: chegar, lavar as mãos muito bem lavadas na água fria, enxugar, colocar avental, caminhar até a UTI neonatal, entrar, lavar novamente as mãos agora com água quente, enxugar, aplicar alcool gel nas mãos limpas e então simplesmente olhar para uma bebê magra, com bigode de esparadrapo, usando apenas uma fraldinha. E longe daquele ambiente sentimos saudade de simplesmente ver como é linda a RN de Tatiane Siqueira (era assim que Heloisa era chamada). Naquele lugar ela não vestia um macacão fofo, não tinha laço na cabeça... apenas dormia, outras horas chorava e já era amada demais.
Claro, havia as situações de choro, medo e desespero. Mas eram casos extremos. Em geral, tudo aquilo que pode apavorar os que estão do lado de fora, para os que passam a maior parte do dia dentro de uma UTI é apenas mais um exercício de paciência: cirurgias, transfusões de sangue e quedas de saturação são narrados em conversas com a mesma naturalidade da mãe que conta sobre o filho que ficou resfriado e precisou perder uns dias de aula.
Era comum, por exemplo, acontecer de o bebê que está entubado apresentar condições favoráveis e sair do tubo. Para poucos dias depois precisar ser novamente entubado. Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, a vida não anda sempre para frente. Ela é tortuosa, com avanços e recuos. As vezes se ganhava 75 gramas, outras vezes se perdia...
No interior de uma UTI neonatal não é possível esquecermo-nos de que somos mortais. Ali, os extremos da vida, força e fragilidade, escancaram-se diante de nós de maneira tal que só nos resta incorporá-los.
E se foram 25 dias (20 na UTI, 5 na semi-intensiva), e Heloisa ganhou peso, e cresceu... e forte, nossa pequena guerreira obteve com glória o direito de ir para sua casa. Esse mérito é só dela, mas a Deus agradecemos por fazê-la forte...
E hoje faz 20 meses desde que nasceu Heloisa Silva Brasile.
Não me esqueço nunca do nosso começo, não quero esquecer... pois foi assim que Robson, Tatiane e Heloisa, nós 3, confiantes em Deus... nos instituimos como uma família.
Obs: Grande parte desse texto foi copiado daqui
http://www.bhdameninada.com.br/#!bebes-prematuros/com6 - Escrito por Betzaida Tavares.
Li o que ela falou sobre os filhos dela, achei lindo e resolvi postar também, pra você, Heloisa, ler e entender a beleza e importância de nossos momentos. Adaptei o texto pra ficar com a nossa cara, mas o mérito é mesmo de Betzaida Tavares, que escreveu tão delicadamente sobre os dias na UTI Neonatal.
Que lindo! Fico feliz em ver meu texto correr pelo espaço virtual... Assim como fico feliz em ver meus bebês hoje forte, robustos e bagunceiros correrem pela casa e pelas pracinhas! Beijos, Betzaida
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