quarta-feira, 18 de setembro de 2013

20 meses

Filha,
Você já tem 20 meses.
Abaixo um relato de 20 meses atrás, um pouco sobre nossos primeiros 25 dias juntas...


SOBRE HELOISA...

Em 16/01/2012 Heloisa nasceu... antes do tempo, eu poderia dizer. Mas digo também que nasceu na hora exata, no momento em que Deus escolheu para apresenta-la a nós, no momento que Deus escolheu para nos mostrar que só dEle dependemos. 
Heloisa nasceu de 7 meses, mais especificamente 32 semanas (quando o esperado são 38). Uma cesariana de emergência trouxe ao mundo a nossa princesa. Pequena e frágil deixou o calor do útero e foi lançada à vastidão da luz como se tivesse sido atirada ao abismo.
Apesar disso, tinha um choro vigoroso, nasceu e logo já tratou de chorar, como se dissesse, desde o início, que estava decidida a vingar, independente do quão hostil lhe parecia o mundo. 
Do ventre foi direto para incubadora. Passou 20 dias em uma UTI neonatal. Foi lá que aprendi que o mistério da vida se cumpre, não no grandioso, mas nas coisas pequenas, quase invisíveis. A comemoração se dá a cada grama adquirida, a cada ml de leite materno consumido. E como comemoramos cada conquista!!! Cada dia de vida é uma festa. 
Enquanto estive lá, na condição de visitante da minha filha, pude acompanhar muitas histórias. Muitas vitórias. Pude me alegrar genuinamente com a alta de bebês de pessoas que nem ao mesmo conhecia direito, a alegria de ver um bebê ir pra casa tomava meu coração de maneira intensa e me peguei muitas vezes chorando feliz por ver um bebê indo embora pra casa. 
Sempre imaginei uma UTI como um ambiente pesado, quase fúnebre. Lugar onde estão as pessoas que esperam a morte, era o que eu pensava. Mas não foi essa a impressão que tive ao entrar pela primeira vez naquela que foi a morada provisória da minha filha. Ali, longe de ser um lugar onde a vida começa a se esvair, é reduto do princípio da vida. Princípio, no sentido de começo, pois abriga vidas que se iniciam, mas também por conter a essência da força vital que a tudo anima.
Em filmes e novelas, uma UTI costuma ser um ambiente grave, com parentes chorosos e médicos cheios de solenidade. Na vida real, claro, não é assim. Tudo o que é incorporado ao cotidiano, perde a solenidade. A UTI neonatal é parte do cotidiano dos médicos e enfermeiros. Todos eles passam várias horas do dia ali muitas vezes sem se dar conta se já escureceu ou se ainda é dia. Os bebês que ali se encontram não conhecem outra realidade além daquela e do útero materno. De repente percebi a UTI neonatal virando parte do meu cotidiano e de muitas mães (mais raramente dos pais) que, em pouco tempo, incorporam aquele espaço de maneira que o ambiente escuro, com incubadoras enfileiradas, monitores e apitos deixa de ser dramático e se torna algo comum. 
É engraçado como rapidamente nos adaptamos a rotina de: chegar, lavar as mãos muito bem lavadas na água fria, enxugar, colocar avental, caminhar até a UTI neonatal, entrar, lavar novamente as mãos agora com água quente, enxugar, aplicar alcool gel nas mãos limpas e então simplesmente olhar para uma bebê magra, com bigode de esparadrapo, usando apenas uma fraldinha. E longe daquele ambiente sentimos saudade de simplesmente ver como é linda a RN de Tatiane Siqueira (era assim que Heloisa era chamada). Naquele lugar ela não vestia um macacão fofo, não tinha laço na cabeça... apenas dormia, outras horas chorava e já era amada demais.
Claro, havia as situações de choro, medo e desespero. Mas eram casos extremos. Em geral, tudo aquilo que pode apavorar os que estão do lado de fora, para os que passam a maior parte do dia dentro de uma UTI é apenas mais um exercício de paciência: cirurgias, transfusões de sangue e quedas de saturação são narrados em conversas com a mesma naturalidade da mãe que conta sobre o filho que ficou resfriado e precisou perder uns dias de aula.
Era comum, por exemplo, acontecer de o bebê que está entubado apresentar condições favoráveis e sair do tubo. Para poucos dias depois precisar ser novamente entubado. Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, a vida não anda sempre para frente. Ela é tortuosa, com avanços e recuos. As vezes se ganhava 75 gramas, outras vezes se perdia... 
No interior de uma UTI neonatal não é possível esquecermo-nos de que somos mortais. Ali, os extremos da vida, força e fragilidade, escancaram-se diante de nós de maneira tal que só nos resta incorporá-los.
E se foram 25 dias (20 na UTI, 5 na semi-intensiva), e Heloisa ganhou peso, e cresceu... e forte, nossa pequena guerreira obteve com glória o direito de ir para sua casa. Esse mérito é só dela, mas a Deus agradecemos por fazê-la forte...
E hoje faz 20 meses desde que nasceu Heloisa Silva Brasile.
Não me esqueço nunca do nosso começo, não quero esquecer... pois foi assim que Robson, Tatiane e Heloisa, nós 3, confiantes em Deus... nos instituimos como uma família. 



Obs: Grande parte desse texto foi copiado daqui 
http://www.bhdameninada.com.br/#!bebes-prematuros/com6 - Escrito por Betzaida Tavares
Li o que ela falou sobre os filhos dela, achei lindo e resolvi postar também, pra você, Heloisa, ler e entender a beleza e importância de nossos momentos. Adaptei o texto pra ficar com a nossa cara, mas o mérito é mesmo de Betzaida Tavares, que escreveu tão delicadamente sobre os dias na UTI Neonatal.

Um comentário:

  1. Que lindo! Fico feliz em ver meu texto correr pelo espaço virtual... Assim como fico feliz em ver meus bebês hoje forte, robustos e bagunceiros correrem pela casa e pelas pracinhas! Beijos, Betzaida

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